Cachorro com medo de fogos: o que fazer hoje

Ligue um som de fundo horas antes da queima começar, e não quando o primeiro estouro chegar, e acomode o cachorro num canto que ele já conhece, com a cortina fechada, antes de o céu acender. O Slo toca ruído marrom de graça no seu navegador, com temporizador para cobrir a noite inteira. Vale ser claro sobre o que o som faz: ele suaviza os estouros e não consegue escondê-los, e a batida grave continua passando pelo chão. É uma parte da noite, e o resto da noite corre melhor com ele ligado.
Por que ele tem tanto medo
A audição de um cachorro capta sons bem mais agudos e mais distantes do que a nossa: cães ouvem entre 67 e 45.000 Hz, contra 64 a 23.000 Hz nos humanos, segundo a Louisiana State University. O estouro de fogos comerciais passa de 125 decibéis, bem acima dos 60 decibéis que já deixam qualquer cão estressado, segundo o CFMV. Ele também não entende de onde vem o barulho nem quando vai parar, o que transforma um susto comum em pânico. Não é frescura: é o corpo dele reagindo a um perigo que parece real.
Hoje à tarde, antes de escurecer
Leve o cachorro para passear e dê a comida ainda de tarde, porque depois que a queima começa ele não vai querer sair nem comer direito. Cachorro cansado e alimentado se acomoda mais rápido quando o barulho chega. Depois feche a casa: portas, janelas, portão e qualquer saída que um cachorro em pânico consiga forçar. Confira a plaquinha da coleira e os dados do microchip, porque um cachorro que dispara numa noite de fogos pode ir parar longe de casa antes de alguém perceber que ele sumiu.
Monte o esconderijo dele num canto que já é familiar, a caixa de transporte coberta ou o cantinho de sempre, onde ele tira cochilo num dia comum. Feche cortina ou persiana ali: isso corta o clarão e ainda tira um pouco do som. Só então ligue o som de fundo, horas antes do primeiro estouro. Um som que já está tocando faz parte do ambiente; um que começa junto com o susto vira parte do susto. Escolha ruído marrom: ele é um ronco grave, o mais parecido com um fogo estourando a algumas ruas dali, então embaralha os estrondos em vez de ficar por cima deles. Deixe num volume em que você ainda conseguiria conversar.
Em algumas noites, o barulho lá fora é mais seco do que um estrondo: alarme de carro, ou estouros ecoando nos prédios da frente. Para isso, ponha ruído branco por cima do marrom: ele é um chiado parelho, então embaralha os sons secos enquanto o marrom segura a parte grave.
Enquanto está estourando
Fique no cômodo e aja normal. Cachorro percebe dono tenso, e você calmo vale mais do que qualquer coisa que você diga. Se ele vier buscar colo, pode confortar à vontade: segurar ou fazer carinho num cachorro assustado não ensina ele a ter mais medo. Oferecer um petisco para roer ou uma brincadeira rápida de cabo de guerra também vale a tentativa: numa pesquisa grande com donos de cães, isso foi uma das poucas coisas ligadas a um cachorro mais calmo durante a queima.
Se ele preferir ficar escondido, deixe. Não puxe ele para fora da caixa para “encarar” o barulho. Não é assim que um cachorro perde o medo de fogos, e isso só soma mais uma coisa ruim a uma noite que já está ruim. E seja honesto sobre o limite: nenhuma caixa de som cobre um fogo estourando perto, nem a batida que sobe pelo chão. Essa parte da noite a gente só atravessa.
Protetor de ouvido ajuda?
Reduz o volume que chega ao ouvido, mas não muda o que aquele barulho significa para o cachorro, então sozinho não tira o medo. Não existe pesquisa testando esse uso contra medo de fogos; o que existe vem de cães de caça e de trabalho, que já usam protetor para abafar tiro. Se for usar, apresente o protetor num dia calmo, bem antes da data que importa, para ele já estar acostumado com a sensação na cabeça.
E a amarração, funciona?
A amarração ou colete de pressão pode ajudar um pouco em alguns cães, mas não em todos, e o efeito costuma ser pequeno quando existe. Uma revisão veterinária de 2018 reuniu os estudos sobre o assunto e chegou à mesma conclusão. Não trate como solução única: use como mais um recurso, e vista o cachorro numa tarde tranquila antes para ver se ele aceita bem o aperto.
Quando é mais que medo
Tremor, respiração ofegante, salivação, esconderijo desesperado ou tentativa de atravessar uma porta ou janela passam do medo comum. A American Veterinary Society of Animal Behavior lista esses sinais como fobia a ruído. Se você está vendo isso, o plano de hoje continua valendo, mas vale ligar para o veterinário nesta semana também. Ele consegue descartar outras causas e conversar sobre se a medicação tem lugar aí. Naquela mesma pesquisa grande com donos, a maioria dos que usaram medicação receitada para medo de fogos disse que ajudou.
Antes da próxima vez
Se isso se repete todo ano, a próxima versão de hoje pode ser mais leve. Medo de fogos dá para trabalhar com o cachorro, aos poucos, com gravações de fogos em volume baixo, aumentando ao longo de semanas. O mesmo grupo de veterinários que descreve a fobia a ruído é claro sobre o prazo: 6 a 8 semanas no mínimo, muitas vezes meses, até o cachorro ficar tranquilo no volume cheio. Ou seja, começa nos meses calmos, não na semana da queima. Se a medicação puder entrar, essa conversa também pertence a esse momento, e não à tarde do dia.
As noites que se repetem: Réveillon, festa junina e gol do time
No Brasil, o Réveillon é a noite mais pesada, mas está longe de ser a única. A festa junina traz bombinha e fogueira em boa parte do país em junho, e um gol decisivo do time da casa solta rojão sem aviso nenhum, em qualquer mês. São Paulo proíbe fogos com estampido desde 2018, mas a lei vale só para a capital paulista. Como festa junina e gol de time não têm hora marcada, o jeito é manter o esconderijo do cachorro sempre pronto, o ano inteiro, e não só no fim de dezembro.
Gatos também sentem medo
Gato raramente late ou anda de um lado para o outro como um cachorro, então o medo dele passa despercebido: você só nota que ele não está mais na sala. A RSPCA recomenda manter os gatos dentro de casa depois que escurece, com a portinha bloqueada, e garantir que o lugar que ele já prefere, no alto ou dentro de uma caixa, continue fácil de alcançar e seja deixado em paz depois que ele se enfiar ali. Se ele parar de comer ou ficar escondido por dias, ligue para o veterinário.
Perguntas frequentes
Como acalmar um cachorro com medo de fogos?
Ligue o som de fundo horas antes da queima, acomode o cachorro no canto que ele já considera seguro, com cortina fechada, e fique por perto quando os estouros começarem. Confortar um cachorro que procura você não piora nada.
Que som abafa melhor os fogos?
Ruído marrom. Ele é um ronco grave, parecido com o som de um fogo que estoura a algumas ruas de distância, então embaralha esses estrondos melhor do que um chiado. Ele não cobre um fogo estourando na sua janela e não faz nada pela vibração que sobe pelo chão.
Por que meu cachorro tem tanto medo de fogos de artifício?
Porque a audição dele é bem mais sensível que a nossa, e o estouro de um fogo passa muito do volume que já deixa qualquer cão estressado. Some a isso o fato de que ele não sabe de onde vem o barulho nem quando vai parar, e dá para entender o pânico.
Protetor de ouvido para cachorro funciona contra os fogos?
Ele reduz o volume que chega ao ouvido, mas não muda o que o barulho significa para o cachorro, então sozinho não resolve o medo. Se quiser tentar, coloque o protetor num dia calmo, semanas antes, para ele se acostumar com a sensação antes da noite que importa.
Amarração ou colete de pressão ajuda o cachorro com medo de fogos?
Pode ajudar um pouco em alguns cães, mas não é garantia nenhuma, e o resultado varia muito de cão para cão. Vale usar como mais um recurso, nunca como o único, e vestir o cachorro numa tarde tranquila antes para ver se ele tolera bem o aperto.
Calmante para cachorro com medo de fogos precisa de receita?
Precisa, e essa conversa com o veterinário tem que acontecer com semanas de antecedência, porque não dá para testar um remédio novo em cima do desespero. Numa pesquisa grande com donos de cães, a maioria dos que usaram medicação receitada disse que ajudou, mas é decisão do profissional depois de examinar o cão, nunca algo para improvisar em casa.
Fontes
- American Veterinary Society of Animal Behavior, A dog’s least favorite holiday, sobre prazos de tratamento e sinais de fobia a ruído.
- Riemer, S. (2020). Effectiveness of treatments for firework fears in dogs, Journal of Veterinary Behavior 37, 61–70, sobre o que ajuda durante a queima e sobre medicação prescrita.
- Buckley, L. A. (2018). Are Pressure Vests Beneficial at Reducing Stress in Anxious and Fearful Dogs?, Veterinary Evidence 3(1).
- Louisiana State University School of Veterinary Medicine, faixas auditivas por espécie.
- Conselho Federal de Medicina Veterinária, via CRMV-PB, defesa da substituição de fogos com estampido por artefatos visuais.
- RSPCA, Fireworks advice for pets, sobre manter gatos dentro de casa e esconderijos.
- Agência Brasil, entenda por que fogos de artifício assustam cachorros e gatos.
- Prefeitura de São Paulo, Lei Municipal 16.897/2018, que proíbe a queima de fogos com estampido na capital paulista.
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